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Bem Vindo!

"Todas as tentativas de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, mitologias e mentiras."
(H. Hesse).

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Vaidade


Foto: Rosemary Ferrari - árvore secular

Tudo aquilo que eu disse, não importa como,
Comporta a um todo, que eu nunca disse. Simples assim.
As bobagens que dizemos; impávidas asneiras.

A liberdade não garante excelência,
O criar não precede o voo.

O mais insípido dos prazeres, sempre será um prazer.
Toda besta é comovente,
Assim como todo o princípio é vão.

Tudo aquilo que faço é artimanha
Para ganhar sua atenção, enquanto caminho a esmo
Erguendo o lírio branco da inveja.

Obsessões, obsessões. Nós somos nossos anseios
Nutridos por sonhos e pesadelos
Fiadas e guirlandas de medos e receios
E sobre as certezas de Ruth edifico.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Flâneur Ataca Outra Vez



            Não poderia ser de outra forma, outro feitio. Ele voltou. Porque, para os não iniciados, uma rua é só um corte, uma artéria da cidade (bem entendido), pessoas e prédios, poeira e carros, barulhos mil e poluição. Mas para o flanêur, a rua é mais do que isso: “...a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma.... A rua é transformação das línguas... As ruas nos dão impressões humanas... A rua é um ser vivo e imóvel.” “...Há ruas que mudam de lugar, cortam morros, vão acabar em certos pontos que ninguém imaginara... A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaira á noite, treme a febre dos delírios, para ela como para as crianças, a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste e quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações é no encanto da vida renovada... Tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu...”
            Não poderia ser de outro modo, o retorno do flanêur, segue a risca ou tenta os ditames dos escritores João do Rio, Balzac e Stern (grande mentiroso, mas bom narrador de lugares e pessoas). E daí? Daí veio um tudo cultural, que nos permeia até agora, no nosso tempo. Somos formados, edificados, por nosso passado.
            Reconhecemos com facilidade os arroubos ainda senhoriais de nossa corte política, tresloucamos, mas ainda aceitamos, quando apanhados em flagrante delito, os ricos posam de inatingíveis, como se barões ainda fossem. Estamos em pleno século 21, mas nosso passado ainda se faz presente em nossa memória atávica, infelizmente, mais do que na visual. A destruição / remodelação, produzida por nossos políticos no início do século XX, levou embora muito das construções históricas importantes, principalmente as do período colonial, algumas ainda presentes, aí sim, felizmente, em nossas igrejas.
            Peregrinávamos, eu e minha esposa fotógrafa, pelas ruas ancestrais de nossa cidade. Procurava pelas citações de esquinas perdidas, locandas escondidas, pinturas murais em bares [próximo artigo]. Seguíamos a um corolário, que se revelou falso. Não encontramos o que procurávamos, e encontramos ao que não esperávamos. Já notaram como essa dubiedade da realidade é sempre prazerosa? Comigo ocorre amiúde, espero por algo, e ganho outra coisa, bem superior em benefícios. Pois, como dizia, andávamos... E andar no Rio 40 graus, a sombra é único.
            A cidade diminui seu tempo, pisa no freio, e resplandece. As pessoas estão mais irascíveis, é verdade, mas afinal estamos em plena globalização, disputas, sobe e desce de cargos, os patrões desapareceram, acima agora, os portadores de obrigações, ações, porções e essas pessoas estão em outros estados, outros países, outros planetas, enfim, (sempre quis dizer isso, e continuar falando, como todos fazem) as pessoas estão mais “nervosas"
            Talvez seja essa a palavra. Não importa. O Rio não nos engole como fazem outras metrópoles. O Rio é capaz de sozinho nos apaziguar, transmutar, ao nos oferecer as belezas às vezes recônditas de nossa cidade.  Entre essas maravilhas o Mosteiro de São Bento. Encarapitado sobre morro, em pleno centro do Rio, oferece sofregamente e regiamente, o regalo de suas inúmeras belezas arquitetônicas, artísticas e por que não dizer turísticas.
            Reverências Mouras, esculturas em madeira, riquíssimas filigranas. O Brasil é o país onde o Barroco tardio mais se expandiu e manteve um desenvolvimento bastante peculiar. Imaginem: século XVIII, nascimento do príncipe em Portugal, comemoração no Brasil, (Rio, São Paulo, Salvador e Pernambuco).
            “...Quem naquele dia, subindo a ladeira, se misturasse a multidão espalhada pela igreja dos religiosos de São Bento assistiria á realização de um espetáculo minuciosamente planejado para atingir o coração dos presentes por meio da atração que deveria exercer sobre olhos e ouvidos.”
            Paredes esculpidas em madeira e recamadas de folhas de ouro, intercaladas por esculturas em pedra, archotes colocados a intervalos regulares, que com sua iluminação bruxuleante, faziam com que as imagens ganhassem um vívido contorno; mesmo assim, as paredes eram recobertas por tecidos em cores vivazes, panos vermelhos, veludos debruados por fios de ouro e prata, recobriam aqui e ali as esculturas soberbas cento e vinte castiçais de prata no púlpito, iluminavam a Virgem de Montserrat, em uma aparente pirâmide de fogo.
            E acima de tudo a música, massa envolvente e harmoniosa, feita da soma de sons de instrumentos e vozes, a cargo da Irmandade de Santa Cecília. Na América e a época, única em saber e organização musical. O coro, instalado em parte elevada, acima da porta de entrada, acompanhava o órgão em evoluções gregorianas sacramentais. O coro efetuado pelos monges, investidos da obrigação de comparecer ao ato, colocava Montserrat, acima de todas as igrejas do Rio, quiçá, do Brasil.
            Creio que ainda hoje, os nossos religiosos crêem ser a missa em seu interior, nesses momentos de magia, o fator principal para o arrebatamento de nosso povo a época. Lindo o cenário! Mas não podemos esquecer que no período, poucos entendiam do latim balbuciado pelos padres. A soberba sede religiososa, não permitia a entrada do populacho, os escravos assistiam a missa do lado de fora, os homens ao fundo e a volta, as mulherese suas acompanhantes, açafatas e escravas, postadas ao centro da nave. Também havia disputas por posições nas laterais “...De acordo com a lógica dessa disputa, recebiam a cotação mais alta as áreas situadas nas proximidades mais imediatas da capela mor.”
            Falei, e falei. Vejam as fotos. Algumas prejudicadas pela proibição de uso do flash, mas assim mesmo corretas em mostrar o que foi o Barroco no Brasil.
Em outras,o milagre benfazejo de uma fé, que se esprai por todo um recinto, ainda e eternamente.
 Em uma, pecado, a fotógrafa, faz-me quase alçar a luz de virginal iluminação, que digo, não faz parte de meu eu, mas vá lá, é uma prova de amor, então que seja. Em outras mostro pequenos detalhes arquitetônicos importados de um Portugal esquecido. Em outras mais, O inigualável Rio. Peço que abstraiam a modernidade, se isso for possível. Imploro mais um pouco, foquem o olhar ao infinito, onde a baia desdentada, a boca banguela de Levy Strauss ainda corre, e vejam ao que o flanêur tanto procura, em sua infatigável caça do antanho.






























             A beleza ainda resplandecente do Rio, de ontem e de hoje.
             Acrescentamos fotos do Centro do Rio, para que creiam que o flanêur, permanece e se manterá impecável.





























Citações da bibliografia:
Cotidiano e vivência religiosa, entre a capela e o calundu- Luiz Mott
Brasil de Todos os Santos – Ronaldo Vanfas e Juliana Beatriz



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Irmão

        
         Parem as impressoras, detenham o prelo. Algo novo nasceu sobre o sol. Minha carne. Um dos pedaços de minha mãe, pariu arte.
         Incontestável instrumento artístico,  como soi  raríssimo acontecer hoje em dia.
         Criar é algo especial. É como um parto, e vê-la brotar é prazeiroso, é essencial.
         Porque é preciso deixar as máquinas fora do assunto. Criar é um brotar. Tem a ver mais com plantas que com humanos.
         Extrema delicadeza, assunto, prontidão de espírito, afabilidade e reconhecimento.  A tônica do criar. Um nobre paganismo ressuscitado, um frescor de antanho. Arte!
         Exata e contínua. Orgulho-me que ele a tenha alcançado a ARTE! Vejam só, a arte e seu meio são contemporâneos. Impossível, o contrário. Criar é estar em sintonia, é marejar o tempo.
         Esquecer de si mesmo. Transparecer na obra, como você conseguiu em música. Alcançar a  vida, que vai afoita aí a frente, construindo os mitos que atingiremos  e não entenderemos, sendo o principal a arte. E aí a vida, observando nosso assombro pergunta: _Qual o animal que de dia...  Não importa, você  agora sabe a resposta.  
        Nada da caricatura moral, que se lê hoje em dia, teu livro eu sei, traduzirá o sensível mundo que nos acolhe. E nas certezas de Ruth afianço.

         Um beijo irmão.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Menino


Porque havia sido escolhido o local,
Delimitado, sancionado.
Porque os que para ali se dirigiriam saberiam onde estariam.
As arestas foram então distendidas.
Agigantaram-se as certezas, pois um local havia sido estremado,
Cumprindo assim os vaticínios.
Todos os de sangue semelhante, e os de sangue requerido,
Singraram então as correntes da dúvida e da perspectiva.
O medo do incógnito e do real dos umbrais do mundo.
Não exigir ser livre e não estar sujeito,
Souberam depois, algo havia sido solicitado.
Sem égide, rito, ícone ou figura.
Indelével no mundo, o abstrato da raça,
Pediria apenas tangível reverência
Pois sabia, que dali a frente, o absoluto, ruíra.
Uma noite eles chegaram.
Os pastores em seu movimento anunciaram.
Todos os pequeninos acorriam.
Vozes sussurrantes  no dia, veementes ao escurecer,
Floridas de histórias, eivadas de sonhos.
Luz a industriar a melancolia em esperança
Aclarar a decência, sanar o mal,
Sarar a fome e a sede de pão, verdade e amor.
Naquela noite, três homens estiveram presentes
Ao nascimento do menino.
Os pergaminhos riscados partiram túrgidos da história,
Da parturiente e do menino.
Transformaram-se em lendas, escárnio, canções,
Blasfêmias, sonhos, relicários, livros e esperanças além.
Naquela noite a palavra fez-se carne.
Morreram dúvidas e a melancolia.
A vida tornou-se mais do que nascer ou morrer.
A luz do mundo eclipsou a do Oriente, do Ocidente e mais, 
Provou que a incerteza, sempre esteve, nos outros,
Fé não era mais magia,
Fora da lógica ilógica das religiões, subsistia a palavra,
Além de toda e qualquer desesperança.

De Heróis a Dragões


            “...Há muito tempo nas águas da Guanabara, o Dragão do Mar reapareceu, na figura de um bravo feiticeiro, a quem a história não esqueceu”
            Confortando obviamente a Nina Rodrigues, o primeiro, talvez a afirmar que “todas aas classes sociais do Brasil, compartilham feitiços”, acreditamos ter visto Francisco Nascimento e João Candido, um dia caminhar por sobre essa terra. E por que não dizer? Afianço então solto ao repto. Quantos mais foram grandes e não se sabe? Os dois aí de cima, são heróis negros verdadeiros, o dragão original e sua reencarnação.
            Heróis reais, que apostaram o mais caro ao ser humano. A vida. Heróis, não de latão ou bronze, como os que se avizinham nas praças. Que os pombos nos vinguem!
Sátira e liberdade. Luiz Gama e sua verdade. O negro que se fez advogado e defendia qualquer um que exigisse alforria, do eito, da clausura, da venda obrigada e de serventia.
            Quando afinal, seus nomes por hagiologia, se ouvirão nas esquinas, ribombando nas lonjuras desse Brasil?
            Darcy Ribeiro dizia: que todo brasileiro, pleiteia ser descendente de índio, a identificar-se como negro. Mesmo um bugre, trazido na correia e abaixo de chibata pé no chão seminu, imberbe, seria preferível tê-lo como avô. O brasileiro talvez o creia mais altivo.  Preferiram, talvez, serem netos de Peri há de um mero passageiro de “tumbeiro”.
            Quantos conhecemos de cabelos alvoroçados, narinas túrgidas lábios espalhados, pele trigueira? Alguns proferirão rápido: meu avô índio, de sangue Goytacaz, isto é dele, chefe nobre da tribo de Campos. Uma avó perdeu-se, que fazer?  Por isso o tempo não me marca, os anos não me chicoteiam.
            Uma forma velada de racismo narcisista retrógado, se isso é possível. Uma parte pretensamente baseada na pureza dos índios, conforme escritos de Rousseau, Montaigne, outra parte claro, flutuando. Aí sim, na mais pura ignorância.
            Poucos quererão ou afirmarão impávidos. Meu sangue negro trago impresso em minha fronte, meu cordão de sangue, herdei de minha mãe, pai, avô ou avó, essa perene certeza, que minha pele configura
            Mãe Aninha Tia Ciata, Mãe Nassô, Juca Rosa—Axé!


domingo, 5 de dezembro de 2010

Robson Crusoé

   
Tenho tempo bastante,
Comida bastante,
 A bebida que suporto
E toda a raiva do mundo.

Telegrama fonado segue...
Quatro palavras e uma obscenidade.

Toca o telefone, não atendo.
Ponto parágrafo íntimo.
Eu, o desmoronador de mim mesmo, insisto.
Aquele que acusado foi, de amar só a si,
Tropeça agora em seu festim, suspenso em bravatas e sedado.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Reviravolta Rio

            O Titãs: as polícias civil e militar reunidas e reforçadas, a elementos das forças armadas desbarataram parcialmente á quadrilhas do tráfico. Trouxeram mesmo pelo cabresto a Zeu, corruptela do deus grego. Músculos aparentes, pelos fartos e olhar de corça assustada. Uma Titanomaquia escrita pelo crioulo doido do Stanislaw. Á vera, um show ao nível dos perpetrados pelo EUA, por aí e acolá, morram de inveja, americanos brancões!
Foto: francês JR - Mulheres São Heróis-Providência-RJ
  
            Como dizia, Zeu foi destronado. Assistimos mesmo a diversos Mercúrios, com suas lépidas sandálias, voando baixo em direção a outro morro enquanto Cronos despejava da sua ira em forma de chumbo quente. Cá prá nós, como tinha mensageiro esse Zeu!
            Outra vez, Zeu, acorrentado e meio que cabisbaixo, seguiu para o Hades. E aí passamos a aulas de decoração, logística, e destemperos mil.
            Como carregar toneladas de erva ladeira abaixo. De novo, só entre nós... Só duzentos quilos de pó? Três toneladas de maconha, armas a mancheias e só aquilo de pó? Tem mais aí! Revira esse covil.  O que segura à boca é o pó. Pelo baixo preço maconha é ralé. Não dá para levantar o arreglo só com erva. As pedras e o pó são o “leitinho das crianças”, Titãs e engravatados.  Revira isso aí, pô!
            E os destemperados! Cansados de ter que construir programas apoiados no que a Globo bota no ar, é, existem programas que sem a Vênus platinada, não teriam porque existir. As tv’s descobriram que programa policial continua vendendo, então trouxeram para tela ao “Patrulha da Cidade”, só que apimentaram ao troço. O apresentador agora se transmutou em juiz, advogado e promotor. Um dos mais famosos entrevistava mesmo ao Senhor Chefe da Polícia civil, quando aproveitando que ele trocava de cadeira, (o entrevistado anterior retirava-se) e virando para a câmera, vociferou, naquele tom e com a boca cheia de algo, (creio que algodão): “Não falei que tinha que escrachar?” Seguindo outras diversas afirmações peremptórias, enquanto o entrevistado olhava, meio que constrangido.
            Veremos surgir agora á diversos “pais da coisa”. Vaticinadores de plantão. Aqueles que agouram e agouram até o momento em algo ocorre, e eles possam dizer: “não disse?”
                        Falta abrir os livros da contabilidade e refazer o caminho tomado pela grana e chegarmos ao verdadeiro luxo, aos Olimpos.
            Outra coisa, do mesmo. Se os livros ficaram, a fuga foi muito rápida, não deu para prender ninguém, não? Daquela locanda, ninguém brotou não...
            Mesmo assim, de qualquer ângulo, quesito ou avaliação, foi muito bom. Pela primeira vez, consideramos como muito proveitoso, um político visitar a outro país, que está ganhando sua luta quanto a máfia em áreas pobres, retorna ao nosso país, implanta e adapta essas idéias.
            Pela primeira vez, um político, arregimenta quadros historicamente e ridiculamente tão díspares quanto nossas forças de defesa (e ataque) e faz com que elas trabalhem em uníssono, perfeito. Só não podem parar. Pontual só o sol. A bandidagem continua a operar. Mesmo onde existem as UPP’s, o tráfico continua. Acabaram as armas em riste, os bailes funk’s madrugadas adentro, está ótimo, mas não perfeito.
            Faltam ainda os investimentos nas áreas carentes, falta retirarem os que habitam as áreas de proteção ambiental, turísticas e de nascentes.           Falta um mundo de coisas. Mais pelo menos foi dado à partida, na qual a população está apoiando e almejando de fato dias melhores “... pro dia nascer feliz...”